|
::
Crítica Teatral :: 17/11/2006 ::
A
companhia Teatro Popular de Munique traz ao Rio (excepcionalmente
até amanhã no Sesc Ginástico) o espetáculo
“Brandner Kaspar e a vida eterna”, de Kurt Wilhelm,
baseado num conto de Franz von Kobell. O espetáculo com
duração de duas horas e meia (o que para o público
carioca pode até soar um pouco cansativo) é falado
em alemão, mas legendado simultaneamente em português.
As poucas vezes em que os atores pronunciam alguma expressão
em português promove-se um efeito ao mesmo tempo, gracioso
e engraçado na platéia. Mas, parece mesmo que o
espetáculo foi feito para encantar, para levar ao espectador
um mundo mágico onde o espaço visual e o espaço
sonoro interagem de modo a destacar a plasticidade da cena.
A empatia do espetáculo deve-se em grande parte ao preparo
técnico e ao entrosamento artístico que a trupe
composta por 38 integrantes (dentre estes 20 são atores)
demonstra ter no palco. É importante ressaltar o fato de
que a qualidade do trabalho está relacionada ao que parece
a diversos fatores: a companhia tem uma trajetória de 23
anos, recebe subvenção da prefeitura de Munique,
trabalha num teatro próprio, mistura em seu elenco um diálogo
visível entre atores e músicos (inclusive, nesse
espetáculo, os músicos também atuam). Além
disso, a proposta de colocar em cena um conto escrito em dialeto
bávaro, cuja primeira publicação ocorreu
no ano de 1871, coloca-nos diante de questões fundamentais
para o teatro contemporâneo, como é, por exemplo,
a contaminação dramatúrgica da cena pela
narrativa e pela dimensão lírica. Há ainda
um aproveitamento de elementos de gêneros distintos: o entrecruzamento
do épico, do lírico, do operístico e do cômico
imprime na cena um colorido infinito e múltiplo.
O texto é inspirado numa fábula popular do século
XIX publicado em forma de conto na revista “Fliegende Blätter”,
com ilustrações de Pocci. O enredo pode ser resumido
nas seguintes linhas: Brandner Kaspar (um malandro alemão)
recebe a visita inesperada da Morte e tenta de todas as formas,
enganá-la, e desse modo, prolongar seu tempo no mundo dos
vivos. Após embriagá-la com cachaça (aguardente
de cereja) faz uma aposta num jogo de cartas e vence a Morte,
ganhando como prêmio mais 18 anos de vida.
Num outro cenário do espetáculo (“O Céu”),
a ausência de Kaspar é descoberta, fato este que
causa sérias acusações à Morte. Com
o objetivo de convencer o malandro a desencarnar, a Morte oferece
uma pequena amostra das maravilhas do Além. Nesse caso,
o autor carrega nas tintas revelando o típico humor (nacionalista)
germânico ao retratar o paraíso como “A Baviera
no Céu”. Kaspar, o malandro, o velhaco, é
finalmente persuadido e decide permanecer ao lado dos anjos, principalmente
porque, desse modo, não corre o risco de passar uma temporada
no Purgatório.
Aliás, na representação do Céu, é
inevitável a lembrança das construções
cenográficas típicas da Commedia dell’Arte,
confirmando o fato de que, a herança de Goldoni e Gozzi
influiu, passando pela fria razão do Iluminismo, na literatura
e no teatro popular alemão do século XIX.
Vale destacar a direção eficaz de Christian Stückl,
a cenografia de Alu Walter, os figurinos de Ingrid Jäger,
a dramaturgia de Volker Bürger, a direção musical
de Markus Zwink, as músicas dos Jovens Músicos de
Riedering e o trabalho dos atores Alexander Duda (“Brandner
Kaspar”) e Maximilian Brückner (“Comerciante
de ossos/Morte”). Imperdível!
Michelle Nicié
*Michelle Nicié é atriz, bacharel
em Artes Cênicas e Mestre em Teatro pela UNIRIO - Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro.
*Outras
Informações:
Espetáculo: “Brandner Kaspar e a vida eterna”
– Münchner Volkstheater – Teatro Popular de Munique.
Local: Teatro Sesc Ginástico Avenida Graça Aranha,
187 – Centro – Rio de Janeiro/ RJ – Brasil.
Período: De 17 a 19 de novembro de 2006, às 19:00
horas.
|